O Segredo da Corrida (ou como sair do sofá depois de um dia intenso de trabalho)

Podem me chamar de clubista, porque hoje serei. O texto de hoje vai ser sobre o atletismo. Mais especificamente, sobre a minha prova: os 1500m. 

Eu corro. Comecei correndo na praia pra desestressar, e hoje compito no universitário. Apesar dos resultados serem bem aquém do nível profissional, encaramos isso com uma devida seriedade. O que eu gosto da corrida é que ela me estabelece limites concretos. E quebrá-los viram minhas metas tangíveis.

Na prova de 1500m temos que saber administrar um ritmo intenso por um longo período de tempo. Se você sair muito rápido, você quebra. Se estiver em um ritmo muito confortável, não tem tempo de passar ninguém até a linha de chegada. Por isso as provas de meio fundo são exclusivamente caracterizadas pela constante presença de escolhas.


No começo, nosso corpo transborda adrenalina e nosso ímpeto é ir o mais rápido possível, garantindo a liderança. A medida que entramos na segunda volta, nossa boca seca, nossos músculos cansam e tendemos a desacelerar — por vezes, falta vontade para passar a(o) adversária(o). São mini escolhas, tomadas a cada metro da prova — e eu diria que a chave está, justamente, em tomar as melhores decisões possíveis, dado sua restrição física, ao longo do 1,5km.

 E por que isso importa?

Analisando de fora, eu sei o que devo fazer a cada momento. Eu sei que devo me controlar, e depois devo forçar. Mas, durante a prova, meu poder de decisão não está em plenas capacidades.

Tomar decisões requer esforço. E, por consequência, energia. Nosso cérebro encontrou meios de adaptabilidade para a tomada de decisões no “modo econômico” – decisões rápidas, ou como Kahneman o põe, é o “Sistema 1” em ação. Afinal, tomamos cerca de 35.000 decisões por dia — haja energia para pensar racionalmente em todas elas!


O problema é que essas decisões não são sempre tomadas à luz da racionalidade. Muitas vezes, são facilmente influenciadas por fatores externos (como as ilusões cognitivas que tratamos aqui neste outro post). E o que vamos discutir hoje são as decisões tomadas em circunstâncias extenuantes, onde temos que exercer o autocontrole.

Ora, autocontrole nada mais é que a tomada de decisão em um ambiente de tentação. E quer tentação maior do que, em uma prova de corrida intensa, parar de correr (ou ao menos reduzir o ritmo sem perceber)?! Os cientistas chegaram à conclusão de que o autocontrole é como um músculo: fadiga e requer energia. Se exercemos uma série de atividades desgastantes, exercer o autocontrole em uma outra atividade logo depois será muito mais difícil — por isso que tem dias que é muito mais difícil sair do sofá após o trabalho para, digamos, fazer uma atividade física (por mais que sua cabeça que esteja cansada). Quando corremos, queremos toda a energia nos empurrando para frente – pensar durante a prova não pode roubar-nos-a.

Foi feito o seguinte experimento por doutorandos em psicologia na década de 90: colocaram estudantes universitários, individualmente, em uma sala frente a um pote de rabanetes e a um pote de cookies de chocolate que tinham acabado de sair do forno. Falou-lhes que estavam realizando um teste de preferências (o que era mentira), e recomendaram à metade do grupo que comesse os rabanetes e ignorasse os cookies e, à outra metade, o contrário. Observaram-nos através de um espelho falso que havia na sala. O experimento era um teste de autocontrole. Depois de um determinado período de tempo, os cientistas voltavam com um enigma em forma de labirinto, indicando ao estudante que o resolvesse enquanto esperava por sua volta, alegando que era necessário um tempo para se estabelecer as preferências depois da experiência. O labirinto, na verdade, era impossível de resolver. Em média, os comedores de cookies passaram 19 minutos tentando resolver o quebra-cabeça, ao passo que os comedores de rabanete, com seu autocontrole esgotado, se esforçaram por apenas 8 minutos (60% a menos).

É por trás dessa teoria que observamos vários exemplos concretos:


Ao irmos ao supermercado com fome, tendemos a gastar muito mais com nossas escolhas.

Tendemos também a sair da dieta com muito mais facilidade se na nossa casa tem opções não saudáveis, às quais devemos resistir nos momentos de gula.

Quando estudamos, nosso cérebro está fatigado do esforço presente, e parece uma opção muito melhor procrastinar com outras tarefas, como mexer no celular ou redes sociais. Inclusive, o simples fato de deixarmos nosso celular no nosso campo de visão enquanto estudamos nos fadiga mentalmente (pois cada vez que o olhamos temos que tomar uma mini decisão de resistir à tentação). Confira aqui nesse outro post. (https://geecusp.wordpress.com/2018/04/25/a-gente-sabe-que-voce-procrastina/)

Por fim, em uma prova de 1500m, a escolha de desacelerar vai também ser muito mais fácil de ser preferida.

E como reverter essas questões?


Conhecem aquela passagem da Odisseia em que Ulisses passa pela ilha de Capri e, já sabendo da existência do canto irresistível das sereias, pede para ser amarrado no mastro? Ele, antes de estar exposto à tentação, sabe qual é sua escolha ótima, tomada de forma racional. Na hora, contudo, anseia pela pior opção – que o leva a morte, inclusive. Ter feito e reforçado sua escolha antes o salva desse perigo. Sendo assim, podemos utilizar essa metáfora para os aspectos de nossa vida.

Fazer uma lista de compras antes de chegar ao supermercado ajuda-nos a ater-nos a nossas necessidades. Definir no início da semana ou do dia o que vamos comer (e só deixar essas opções disponíveis) torna mais fácil seguir a dieta. Estudar longe do celular evita que procrastinemos. E, analogamente, ter todas as decisões pré-pensadas a respeito da prova, poupam esforço mental e ajudam na escolha ótima.

Como, contudo, garantir que essas escolhas serão tomadas? A tentação vai estar presente. E, com a falta de energia, quem estará em ação é nosso sistema automático.

Devemos, pois, tornar essas escolhas automáticas!


Você já percebeu que certas tarefas foram repetidas tantas vezes que nós nem precisamos pensar para fazê-la? Veja bem: a nossa atenção é um recurso escasso! Como, então, conseguimos sair da garagem com o carro (uma sequência de movimentos relativamente complicada) e conversar ao mesmo tempo? Ou então tocar um instrumento musical com movimentos diferentes nas duas mãos? Tem processos que ficam gravados na nossa mente – são eles os hábitos. Ficam, precisamente, inseridos nos gânglios basais, uma parte mais primitiva de nosso cérebro, segundo os conhecimentos mais recentes de neurociências. Essas tarefas já estão tão automáticas que, ao sermos expostos ao gatilho referente, nosso cérebro antecipa a respectiva recompensa, antes mesmo de executar a tarefa. Essa deixa aciona automaticamente a tarefa específica que você deve fazer, motivada pelo anseio da recompensa.

A medida que conseguimos transformar essas escolhas complicadas em comportamentos automáticos, não sobra espaço para desvios momentâneos.
Traduzindo: toda vez que o pensamento de fadiga passar pela minha cabeça, eu devo transformar em gatilho para levantar o joelho, praticando esse processo nos treinos. Automatizando essa resposta do meu corpo, poupo energia, necessária na corrida, tomo a decisão correta nas voltas finais e, finalmente, consigo melhorar meu tempo.

É importante ressaltar que o autocontrole acaba transbordando para demais esferas: quando você passa a exercê-lo frente a determinado hábito específico, fica mais fácil fazê-lo para demais coisas, como mostra os estudos decorrentes do conhecido experimento do Marshmallow. Particularmente, digo que é verdade: é muito mais fácil ter vontade de treinar pesado se estou treinando com certa frequência, seguindo uma dieta, bebendo água regularmente, tomando suplementos, evitando álcool – não só pela condição física favorável mas porque, mentalmente, essas decisões tornam-se mais fáceis – automáticas – de serem tomadas!

 

Referências – Para saber mais:


DUHIGG, Charles. O Poder do Hábito. Objetiva, 2012.

MISCHEL, Walter. O Teste do Marshmallow. Objetiva, 2016.

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4 comentários em “O Segredo da Corrida (ou como sair do sofá depois de um dia intenso de trabalho)

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